Durante a noite do dia 14 de fevereiro, em meio ao verão amazônico, estava conversando com Geraldo. Nossa relação não pode ser definida com êxito através de uma palavra exata devido à pluralidade de naturezas dessa mesma relação. Uma hora, vejo Geraldo como um conhecido de uma época passada, e em outra, vejo Geraldo como um cúmplice de minhas vontades mais terrenas. Talvez seja reconfortante saber que existe alguém que dará exatamente o que você quer, apesar de eu saber que sou levado, internamente, por meus impulsos nesses momentos, o que não é algo tão bom se desejo ser racional. No fundo, não quero ser racional, quero sentir, quero ser usado, quero que o toque de um homem me faça estremecer, me faça delirar. No fim das contas, Geraldo é exatamente o que alguém como eu quer.
Entre tópicos e mais tópicos, chegou o fatídico momento em que, prestes a mostrar um texto de meu íntimo a ele, sou surpreendido pela seguinte frase: "Dobro e passo pro próximo". Eu não escrevi mais nada no chat pelos segundos posteriores. A minha cabeça travou: "Como assim?", "O que é isso? Uma piada?", "Por que ele falou isso?", "O que ele está tentando fazer?". Meu corpo não sabia o que sentir, qual emoção seria a mais apropriada? Eu revelei a ele palavras sobre uma decepção vivida, sobre um assunto que queima meu rosto até hoje, e ele disse isso. Ele não tinha consciência sobre o que ele próprio significava para mim. "Será que ele acha que não tem importância aos meus olhos? Mas ele é muito importante!!! É ele quem mais confio minha vida, o que ninguém vê externamente. Ele tem acesso a coisas que nem penso em dizer ao meu futuro marido. Eu jamais exporia esse texto se não o achasse digno para olhá-lo".
O que de fato eu senti? Eu não sei, mas tentarei descobrir. A ex-atriz Lídia Brondi, famosa pelas novelas da década de 70 e 80, uma vez disse em uma entrevista uma frase que me chamou a atenção: "É claro que eu quero me sentir linda e maravilhosa, quero que todos me amem...". É exatamente aqui que o assunto se iniciará. Desde que publiquei o meu primeiro livro, sinto-me estranho. Não sei se é algo de todo autor, mas comigo está acontecendo muito. Uma forte onda de sentimentos negativos vem me dominando porque almejo ser lido, conhecido, lembrado por alguma coisa cuja sociedade atual considere "culta". E isso não tem acontecido, mas para mim é injusto!!! Eu não escrevo para o nada, eu escrevo para um leitor, para alguém ver, ler, sentir. Não é a minha vontade deixar ideias sufocando em uma gaveta. Quero que leiam, quero que conheçam. Quero que me conheçam através do que escrevo porque é justamente por esse meio que me expresso na totalidade. Eu quero me sentir lindo e maravilhoso, quero que todos me amem através do que apresento ao mundo pela escrita, pelas palavras, pelas conexões, pelas frases, pelos textos.
Escrever é o que eu sei fazer, é o meu propósito. O que me resta se a escrita for tirada de mim? Haverá continuação da minha vida se isso acontecer? Posso me entender como indivíduo existente se não puder mais escrever? Seria uma das piores torturas já vistas da humanidade: a impossibilidade de se desabrochar. Palavras têm múltiplos significados, podem expressar as coisas mais distintas, uma frase como "Dobro e passo pro próximo" pode não representar uma ofensa... para quem não escreve! Porque para quem depende disso para se sentir vivo, é como um disparate! É como uma faca enferrujada que você pega de uma rua qualquer e enfia bem no meu peito. "Como pode dizer isso a mim? Justamente para mim? Entre tantos sujeitos, por que me violentar assim? Agora eu compreendo, inicialmente fiquei em choque, e depois foi virando ódio, que de tão intenso nem conseguia digitar algo. Geraldo cometeu um crime. Às 21h45, ele pegou uma faca enferrujada e cravou no meu peito, foi o instante em que enviou aquelas palavras.
Mas, alguns segundos depois do assassinato que não matou de verdade, um clique aconteceu na minha mente, uma transformação de perspectiva foi instaurada, uma resposta foi encontrada. Fiquei boquiaberto, meus olhos abriram em um tamanho considerável, apresentando um brilho visível. De repente, uma grande carga de energia surgiu e irradiou por todo o meu corpo! Me senti como uma estrela ascendendo aos céus! Tantas coisas foram repensadas, reconsideradas, reformuladas, tantas coisas mudaram! Como posso colocar minhas vontades acima das vontades dos outros? Como posso apenas pensar no que quero que aconteça? Estou sendo egoísta demais! Não é assim que as coisas funcionam, não é assim que devem funcionar! Ninguém tem a obrigação de realizar os meus desejos e o que quero só importa a mim. Quando Geraldo disse o que disse, ele não estava me proibindo de exercer a minha respiração para viver, estava apenas expressando que não tinha interesse, naquele momento, de saber o que eu havia criado. Ele nunca falou que achava ridículo o que eu fazia, ou que deveria parar e aposentar o lápis. Ele nunca disse coisas que fariam sentido ele dizer para que eu reagisse da forma que reagi. Havia considerado tudo aquilo como um crime, mas o que foi de fato? Apenas uma vontade proferida que não foi bem recebida por ter sido entendida de forma equivocada.
"A vida é simples, o ser humano que a complica". Concordo com essa frase porque ela é bastante real! Quantas vezes damos atenção a coisas banais e sem sentido de urgência? E quantas vezes não ligamos para o que realmente importa? Esse é o problema do ser humano, sempre focando energia naquilo que não precisa, que não necessita ser resolvido primeiro. Depois de várias análises feitas, senti vergonha e culpa por ter visto tudo de maneira errada. Eu precisava pedir desculpas ao Geraldo, senti-me muito infantil. É claro que toda essa situação poderia ter escalado para algo bem desagradável se eu e o Geraldo não fôssemos maduros o suficiente, mas depois de entrar na casa dos 20 anos de idade, certas ações se tornam extremamente relevantes, enquanto outras são deixadas para trás. É importante compreender o próximo na medida do possível e desconfiar das próprias conclusões, nem tudo é tão óbvio assim, nem tudo exige defesa ou brigas. Geraldo é e será para mim a pessoa que continuo querendo e essa relação ainda será indefinível, já era assim e continua sendo após esse momento de indignação. Uma indignação que não pode ser entendida como tal porque é uma indignação burra, baseada em egoísmo.
Foi essa" indignação que não pode ser entendida como tal" que resultou nas coisas que se deram depois. Agradeci, após algum tempo, a Geraldo por ter proporcionado, mesmo que de forma involuntária, essa mudança em mim. Ele, do jeitinho que só ele tem, me deu um sorriso e um presente, aquele presente que apenas nós dois conhecemos bem o que é, e então me fez seu por uma noite longa, bem longa.
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