sábado, 17 de janeiro de 2026

Carta de um dia dezembrino

Manaus, 21 de dezembro de 2025

Meu querido amigo,

Hoje acontece o solstício de verão aqui no hemisfério sul do globo, meu pai diz que é o dia em que a luz solar tem maior duração e, consequentemente, a "menor noite" também. Olho pela janela e vejo os pássaros no horizonte, voando em direção às faixas laranjas do entardecer. Essa hora é tão bonita, para mim é "A Hora!", como diria Pessoa. Momento de libertação, momento de realização. Você me perguntou há um tempo se eu havia conquistado minha independência onírica, acho que ainda não, na verdade, acho que nunca a conquistarei. Afinal, o que é o subconsciente sem um consciente? O que é o consciente sem um ser que o disponha? Sonhos podem existir sem mecanismos que o criem, sendo ele a manifestação consciente do inconsciente? Você sabe que, no passado, eu até acreditava nessa possibilidade, na verdade, ainda acredito um pouco por algum motivo desconhecido, mas com menos crença. Talvez, bem talvez mesmo, seja pela ideia típica que muitos sujeitos têm em ver um indivíduo como sendo dividido em duas partes, o material e o espiritual, e daí cria-se a hipótese de "mega independência das partes", componentes que, ao se separarem, agem por si mesmos, da maneira como sabem agir sozinhos. Porém, será possível uma parte material sem uma espiritual ter independência onírica? Ou, também o contrário, será possível uma parte espiritual sem uma material adquirir essa independência? E ainda há mais questionamentos: é possível as duas partes juntas conseguirem esse objetivo? E, se sim, por que não a alcancei até o presente momento? O que me falta? Me fale, Epaminondas, me fale qual é o caminho, se me perguntas se obtive êxito, é porque há chances de acontecer? Ou, simplesmente, apenas é um curioso? Estou para desistir dessa ideia, que a cada dia me parece mais ridícula do que tentar enfiar um elefante pelo buraco de uma fechadura. O sol vai indo embora de pouco em pouco, fazendo sua luz irradiar por novas áreas agora. É realmente “A Hora!”.

Despeço-me com dúvidas e ânsia por justificativas.

B.

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