sábado, 14 de fevereiro de 2026

Testemunho de uma indignação que não pode ser entendida como tal

 Durante a noite do dia 14 de fevereiro, em meio ao verão amazônico, estava conversando com Geraldo. Nossa relação não pode ser definida com êxito através de uma palavra exata devido à pluralidade de naturezas dessa mesma relação. Uma hora, vejo Geraldo como um conhecido de uma época passada, e em outra, vejo Geraldo como um cúmplice de minhas vontades mais terrenas. Talvez seja reconfortante saber que existe alguém que dará exatamente o que você quer, apesar de eu saber que sou levado, internamente, por meus impulsos nesses momentos, o que não é algo tão bom se desejo ser racional. No fundo, não quero ser racional, quero sentir, quero ser usado, quero que o toque de um homem me faça estremecer, me faça delirar. No fim das contas, Geraldo é exatamente o que alguém como eu quer.


Entre tópicos e mais tópicos, chegou o fatídico momento em que, prestes a mostrar um texto de meu íntimo a ele, sou surpreendido pela seguinte frase: "Dobro e passo pro próximo". Eu não escrevi mais nada no chat pelos segundos posteriores. A minha cabeça travou: "Como assim?", "O que é isso? Uma piada?", "Por que ele falou isso?", "O que ele está tentando fazer?". Meu corpo não sabia o que sentir, qual emoção seria a mais apropriada? Eu revelei a ele palavras sobre uma decepção vivida, sobre um assunto que queima meu rosto até hoje, e ele disse isso. Ele não tinha consciência sobre o que ele próprio significava para mim. "Será que ele acha que não tem importância aos meus olhos? Mas ele é muito importante!!! É ele quem mais confio minha vida, o que ninguém vê externamente. Ele tem acesso a coisas que nem penso em dizer ao meu futuro marido. Eu jamais exporia esse texto se não o achasse digno para olhá-lo".


O que de fato eu senti? Eu não sei, mas tentarei descobrir. A ex-atriz Lídia Brondi, famosa pelas novelas da década de 70 e 80, uma vez disse em uma entrevista uma frase que me chamou a atenção: "É claro que eu quero me sentir linda e maravilhosa, quero que todos me amem...". É exatamente aqui que o assunto se iniciará. Desde que publiquei o meu primeiro livro, sinto-me estranho. Não sei se é algo de todo autor, mas comigo está acontecendo muito. Uma forte onda de sentimentos negativos vem me dominando porque almejo ser lido, conhecido, lembrado por alguma coisa cuja sociedade atual considere "culta". E isso não tem acontecido, mas para mim é injusto!!! Eu não escrevo para o nada, eu escrevo para um leitor, para alguém ver, ler, sentir. Não é a minha vontade deixar ideias sufocando em uma gaveta. Quero que leiam, quero que conheçam. Quero que me conheçam através do que escrevo porque é justamente por esse meio que me expresso na totalidade. Eu quero me sentir lindo e maravilhoso, quero que todos me amem através do que apresento ao mundo pela escrita, pelas palavras, pelas conexões, pelas frases, pelos textos.


Escrever é o que eu sei fazer, é o meu propósito. O que me resta se a escrita for tirada de mim? Haverá continuação da minha vida se isso acontecer? Posso me entender como indivíduo existente se não puder mais escrever? Seria uma das piores torturas já vistas da humanidade: a impossibilidade de se desabrochar. Palavras têm múltiplos significados, podem expressar as coisas mais distintas, uma frase como "Dobro e passo pro próximo" pode não representar uma ofensa... para quem não escreve! Porque para quem depende disso para se sentir vivo, é como um disparate! É como uma faca enferrujada que você pega de uma rua qualquer e enfia bem no meu peito. "Como pode dizer isso a mim? Justamente para mim? Entre tantos sujeitos, por que me violentar assim? Agora eu compreendo, inicialmente fiquei em choque, e depois foi virando ódio, que de tão intenso nem conseguia digitar algo. Geraldo cometeu um crime. Às 21h45, ele pegou uma faca enferrujada e cravou no meu peito, foi o instante em que enviou aquelas palavras.


Mas, alguns segundos depois do assassinato que não matou de verdade, um clique aconteceu na minha mente, uma transformação de perspectiva foi instaurada, uma resposta foi encontrada. Fiquei boquiaberto, meus olhos abriram em um tamanho considerável, apresentando um brilho visível. De repente, uma grande carga de energia surgiu e irradiou por todo o meu corpo! Me senti como uma estrela ascendendo aos céus! Tantas coisas foram repensadas, reconsideradas, reformuladas, tantas coisas mudaram! Como posso colocar minhas vontades acima das vontades dos outros? Como posso apenas pensar no que quero que aconteça? Estou sendo egoísta demais! Não é assim que as coisas funcionam, não é assim que devem funcionar! Ninguém tem a obrigação de realizar os meus desejos e o que quero só importa a mim. Quando Geraldo disse o que disse, ele não estava me proibindo de exercer a minha respiração para viver, estava apenas expressando que não tinha interesse, naquele momento, de saber o que eu havia criado. Ele nunca falou que achava ridículo o que eu fazia, ou que deveria parar e aposentar o lápis. Ele nunca disse coisas que fariam sentido ele dizer para que eu reagisse da forma que reagi. Havia considerado tudo aquilo como um crime, mas o que foi de fato? Apenas uma vontade proferida que não foi bem recebida por ter sido entendida de forma equivocada.


"A vida é simples, o ser humano que a complica". Concordo com essa frase porque ela é bastante real! Quantas vezes damos atenção a coisas banais e sem sentido de urgência? E quantas vezes não ligamos para o que realmente importa? Esse é o problema do ser humano, sempre focando energia naquilo que não precisa, que não necessita ser resolvido primeiro. Depois de várias análises feitas, senti vergonha e culpa por ter visto tudo de maneira errada. Eu precisava pedir desculpas ao Geraldo, senti-me muito infantil. É claro que toda essa situação poderia ter escalado para algo bem desagradável se eu e o Geraldo não fôssemos maduros o suficiente, mas depois de entrar na casa dos 20 anos de idade, certas ações se tornam extremamente relevantes, enquanto outras são deixadas para trás. É importante compreender o próximo na medida do possível e desconfiar das próprias conclusões, nem tudo é tão óbvio assim, nem tudo exige defesa ou brigas. Geraldo é e será para mim a pessoa que continuo querendo e essa relação ainda será indefinível, já era assim e continua sendo após esse momento de indignação. Uma indignação que não pode ser entendida como tal porque é uma indignação burra, baseada em egoísmo.


Foi essa" indignação que não pode ser entendida como tal" que resultou nas coisas que se deram depois. Agradeci, após algum tempo, a Geraldo por ter proporcionado, mesmo que de forma involuntária, essa mudança em mim. Ele, do jeitinho que só ele tem, me deu um sorriso e um presente, aquele presente que apenas nós dois conhecemos bem o que é, e então me fez seu por uma noite longa, bem longa.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Carta de um dia dezembrino

Manaus, 21 de dezembro de 2025

Meu querido amigo,

Hoje acontece o solstício de verão aqui no hemisfério sul do globo, meu pai diz que é o dia em que a luz solar tem maior duração e, consequentemente, a "menor noite" também. Olho pela janela e vejo os pássaros no horizonte, voando em direção às faixas laranjas do entardecer. Essa hora é tão bonita, para mim é "A Hora!", como diria Pessoa. Momento de libertação, momento de realização. Você me perguntou há um tempo se eu havia conquistado minha independência onírica, acho que ainda não, na verdade, acho que nunca a conquistarei. Afinal, o que é o subconsciente sem um consciente? O que é o consciente sem um ser que o disponha? Sonhos podem existir sem mecanismos que o criem, sendo ele a manifestação consciente do inconsciente? Você sabe que, no passado, eu até acreditava nessa possibilidade, na verdade, ainda acredito um pouco por algum motivo desconhecido, mas com menos crença. Talvez, bem talvez mesmo, seja pela ideia típica que muitos sujeitos têm em ver um indivíduo como sendo dividido em duas partes, o material e o espiritual, e daí cria-se a hipótese de "mega independência das partes", componentes que, ao se separarem, agem por si mesmos, da maneira como sabem agir sozinhos. Porém, será possível uma parte material sem uma espiritual ter independência onírica? Ou, também o contrário, será possível uma parte espiritual sem uma material adquirir essa independência? E ainda há mais questionamentos: é possível as duas partes juntas conseguirem esse objetivo? E, se sim, por que não a alcancei até o presente momento? O que me falta? Me fale, Epaminondas, me fale qual é o caminho, se me perguntas se obtive êxito, é porque há chances de acontecer? Ou, simplesmente, apenas é um curioso? Estou para desistir dessa ideia, que a cada dia me parece mais ridícula do que tentar enfiar um elefante pelo buraco de uma fechadura. O sol vai indo embora de pouco em pouco, fazendo sua luz irradiar por novas áreas agora. É realmente “A Hora!”.

Despeço-me com dúvidas e ânsia por justificativas.

B.

O que fazer pelos nossos?

 Escrito em 23/09/2025


“E” e “D” se casaram em 1966, numa época em que as informações eram mais difíceis de serem compartilhadas. Nenhum deles sabia o que rolava nos grandes centros urbanos do país, vivendo desde o nascimento em terras interioranas do sertão baiano. Se perguntassem aos dois sobre a perspectiva de futuro que tinham, você não ouviria sequer o pensamento de que um lápis e um caderno eram uma possibilidade para eles. “E” aprendeu desde cedo pelo seu pai que a verdadeira vocação do homem é o trato da terra, enquanto “D” nunca foi ensinada a ser alguém além de uma mulher de prendas domésticas. O que restou aos dois nos anos que ainda tinham pela frente? Cuidar dos filhos que viriam mais tarde e envelhecer um ao lado do outro, e foi isso que aconteceu. Nunca esqueceram de incentivar aos seus descendentes aquilo que acreditavam ser o melhor. A enxada cobrava o seu preço, e a sensação de impossibilidade era companheira constante dos dois. Foi tentando lutar contra isso que viram suas criações atingirem patamares jamais imaginados. Décadas depois, “D” se foi, mas saiu desse mundo com a certeza de que viveu da melhor forma que pôde, enquanto “E” ficou por aqui, vivendo o que ainda tinha para ser vivido. Essa não é apenas uma história sobre humildade, companheirismo e vitória. Essa é a história dos meus avós. Seus esforços se refletem em mim hoje, eles que deram ao meu pai a chance de sorrir, e a mim a chance de correr gargalhando pelo mundo afora.

Separação

Escrito em: 04/03/2025


 Hoje, madrugada do dia 4 de março, e eu no meio de uma crise de ideias, opiniões, considerações e lembranças. Vamos começar onde o nó ainda era suave, para depois ele se enrolar mais e mais. Duas pessoas estavam me pedindo ajuda, na verdade me pedindo uma luz, um guia para o caminho que deveriam seguir e, sinceramente, se eu soubesse que me viam como alguém que tem tamanha capacidade para tal, eu não teria deixado minha imagem tão positiva assim. Afinal, nem tudo é o que parece ser, e apesar das minhas questões mentais já estarem resolvidas e pertencerem a um tempo diferente deste, o que serviu para mim pode muito bem não servir para outros. Me apresentei como ouvinte para ganhar conhecimento das situações e foi após isso que percebi que estava no mesmo local do início. Como eu ajudaria alguém a não sair desse plano? Como eu faria isso? Um martelinho bateu na hora em minha cabeça: “Você não é um super-herói, não adianta”. Cometi o erro mais tarde de me afundar em águas que não eram as do universo amarelístico, me joguei sem notar em matas novas, perigosas, e o pior, deixei que tudo o que se encontrasse por esses locais me atingisse. A espada não estava em meu coração, mas passei a agir como se estivesse. Tudo isso porque quero sempre salvar todos, quero ser a Muralha da China, quero ser as defesas de Roma, quero ser as paredes de um castelo medieval. Que grande bobagem essa minha de almejar ser o Salvador da Pátria, nem mesmo o Cristo Redentor consegue olhar a todos do alto do Rio. Na minha cabeça de mais novo, ele era como uma autoridade clerical. Enfim, me toquei que estava voltando a ser o que era antes, e a corda já estava me sufocando de tão apertada que se encontrava em volta do meu pescoço. Devido a isso, busquei as lições aprendidas nessa jornada chamada “Vida”, guardadas em papiros sagrados dentro do meu ser. Me reorganizei, retornei ao meu posto de estabilidade e me blindei com mais um escudo, o da Distância, com relação a coisas que não são as minhas próprias. E agora, o caminho que eu escolho tomar ainda é o de ajudar, porém sempre com mais consciência, até porque, como posso aconselhar alguém se eu não estiver bem devido aos próprios problemas dos outros que eu deixei me afetar? Que o que venha de mim seja sempre girassol, e os demais que me procurarem transmitam boas flores também.

Migrante

 Escrito em 10/01/2025


Eu não sou fixo em uma terra. Gostaria de ter tido a oportunidade de ser mais um "está ali desde sempre", entretanto, me foi tirado essa possibilidade bem cedo e agora acho que tenho uma lacuna na identidade. Fui surgir no interior de São Paulo, numa cidade tão pequena que apenas quem é de lá sabe que existe. Após alguns anos, vim para a capital da Amazônia, reinventei meu conhecimento inteiro, adquiri uma nova perspectiva aqui e a uso desde então. Mas, quem é do lugar sabe que não sou um semelhante, já começando que o meu dizer denuncia a origem, seja aquele som na fala que é diferente ou as palavras que me são desconhecidas em um lugar onde tem o posto de "popularizadas". Achei que voltando para a raiz, iria sentir algo diferente, mas não aconteceu. Lá o meu dizer também não era mais compatível, não era semelhante a nenhum dos dois mundos. Sou fragmentado, o que sair da minha boca é mistura e meus pensamentos e saberes são mesclados.

 Nortista demais para ser paulista puro e com traços sudestinos evidentes para ser completo amazônida. Uma hora lá, uma hora cá, não sou de lugar nenhum.

Ideias de um dia chuvoso

 Escrito em 16/12/2024


Sentado em uma cadeira dura na frente do computador da UEA, escrevo para apenas um par de olhos verem. Essa escrita por enquanto não é destinada para outro alguém, mas o foco não é esse e também isso pode mudar com o tempo. Quando olho pra cima, vejo as janelas molhadas da biblioteca pelas gotas da tempestade descendo devagar, uma a uma, dezembro quando chega já profetiza o milagre nordestino no meio da Amazônia. Todos já sabem que a natureza já não é a mesma de tempo anteriores, mas, durante a rotina, os escravos do capitalismo não têm tempo pra ligarem pra isso ou, se notam, fingem não se importar, se é que se importam mesmo. É disso que passei a duvidar, passei a questionar tudo a minha volta e com razão. A corrupção americana vai pouco a pouco contaminando o resto de humanidade que ainda nos sobra, vai acabando ao mesmo tempo com suas presas, a parte latina tão odiada do continente. Mas porquê disso? É uma pergunta que deve ser respondida pelos antepassados colonizadores que, por um tempo, só incomodavam o Velho Mundo, mas depois espalharam-se por aí se achando os reis da Terra. Não sei se me cabe alguma fala nessa situação, quando olho pra janela de um passado que não vivi, mas que ajudou a me fazer quem sou, eu sinto um confusão imensa. Acho que essa é a maldição de ser mestiço, sou como um balde que capturou tanto a água do rio Negro quanto o rio Solimões. Sou o que junta as duas águas diferentes, mas no fundo ainda são apenas águas, um é o que o outro também é. Se são a mesma coisa depois de se analisar bem então o que me causa esses sentimentos estranhos? Bom, quando se sabe que seu tataravô escravocrata chicoteava e torturava sua tataravó escravizada, sua percepção de mundo muda e garanto que bastante. Ninguém é o mesmo quando enfrenta de frente as questões de uma época que formaram as gerações até chegar a sua, sejam elas raciais, étnicas, morais e etc. Se ao menos as pessoas sempre soubessem que todos nós somos apenas águas, o mundo seria melhor, somos como a água que está presente nessas gotas que caem da chuva, que estão molhando as janelas da biblioteca, nessa vasta cidade amazônica, em meio a um ecossistema que está prestes a rachar. Realmente, hoje está um ótimo dia para tomar um chá e ficar embaixo do cobertor, tenho a sensação de que esqueci alguma coisa no varal de casa, será que o ônibus já vai passar?

Testemunho de uma indignação que não pode ser entendida como tal

 Durante a noite do dia 14 de fevereiro, em meio ao verão amazônico, estava conversando com Geraldo. Nossa relação não pode ser definida com...